Uma variante dessa versão afirma que o Banco do Rio Grande do Sul devia ao Banco Pelotense e não se dispôs a pagá-lo durante a crise de 1929; outra diz que Getúlio Vargas resolveu que recaíssem sobre os depositantes do Banco Pelotense as despesas da revolução de 1930.
Afirma-se que o Banco do Brasil fornecia dinheiro a todos os bancos que estivessem em crise, mas recusou-se a socorrer o Banco Pelotense. Ainda pode ser ouvido que um ex-diretor do Banco Pelotense, que foi dirigir o Banco do Rio Grande do Sul, levou informações de cocheira e tramou pela destruição do banco.
Na segunda vertente, é apontada a excessiva imobilização dos ativos do Banco Pelotense, principalmente em terras, gado e imóveis, notadamente nas agências do banco.
No imaginário dos pelotenses, a primeira vertente, em suas variadas versões, parece ter assumido status de causa determinante principal, e, a segunda, de causa apenas contributiva.
Até que ponto esse imaginário corresponde aos fatos? Obviamente que a personalização das causas facilita o entendimento da questão.
É muito mais fácil explicar de maneira romanesca que alguém liquidou o Banco Pelotense do que procurar causas dentro das regras dos negócios, impessoais, de difícil compreensão para o leigo.
As atividades bancárias são de difícil explicação, e, às vezes, o que parece correto ao senso comum é um grande erro do ponto de vista dos negócios.
As questões econômicas (e as bancárias e monetárias ainda mais), por fugirem ao senso comum, prestam-se a explicações folclóricas - e muitas vezes errôneas. À medida que o tempo passa, apenas a lenda, muito mais simples de entender, sobrevive.
O Banco Pelotense foi fundado como banco local, em Pelotas, em 5 de fevereiro de 1906. Expandiu-se rapidamente pelo RS até 1920.
Para isso contribuíram a fase de expansão monetária e creditícia no Brasil durante a Primeira Guerra Mundial e os empréstimos tomados no exterior por Estados e Municípios. Em 1906, o banco possuía 3.000 contos de réis em depósitos; em 1920, eram 131.000 contos.
Era um banco misto: (a) de depósitos e descontos e (b) de crédito hipotecário. Isso significa que captava seus recursos na forma de depósitos, e emprestava tanto a curto prazo (descontos de títulos e recebíveis com prazos variados de curto prazo) como a longo prazo (crédito hipotecário - imobilizações).
Tecnicamente, os bancos que atuam no crédito hipotecário devem obter seus recursos a prazos que sejam compatíveis com seus empréstimos de longo prazo. Normalmente contam com o suporte dos Estados nacionais para emprestarem com taxas de juros baixas e compatíveis com os empreendimentos de longo prazo.
Também os empréstimos de curto prazo (descontos) devem ser feitos a tomadores que apliquem esses recursos em prazos semelhantes aos dos empréstimos. Ou seja: deve haver um casamento de prazo entre as várias operações: depósitos, empréstimos e aplicação desses empréstimos na atividade produtiva.
Também devem ser adequadas as taxas de juros de captação e empréstimos. No caso dos créditos hipotecários, não havia fontes especiais de recursos a baixas taxas de juros (suportadas ou não por governos).
As taxas de juros de captação (dos depósitos) estavam sujeitas a aumentos em situações de crise de liquidez ou aumento da concorrência entre os bancos (ou as duas coisas ao mesmo tempo), na tentativa de manter ou aumentar a base de depósitos.
As características da economia gaúcha no período não favoreciam a existência de um banco misto. Os depósitos do Banco Pelotense podiam ser sacados a qualquer momento; entretanto, seus empréstimos eram de difícil recolhimento abrupto.
Mesmo os empréstimos de curto prazo o eram de curto prazo apenas nominalmente, pois estavam concentrados na pecuária, atividade que gera esparsa circulação monetária, e na imobilização em terras. Os créditos hipotecários eram ainda menos recolhíveis abruptamente, por sua própria natureza.
O Banco Pelotense tinha assim teoricamente uma tendência a ir bem enquanto os depósitos estivessem crescendo; nos momentos de crise ou estagnação monetária, tinha naturalmente dificuldades para enfrentar diminuição (saques) em seus depósitos, que deveriam ocorrer devido à escassez de moeda.
Obviamente que as fases de diminuição de depósitos bancários não devem ser encaradas como extraordinárias. Crises monetárias são recorrentes na economia, e eram muito comuns na época. Os bancos tem de ser capazes de enfrentar situações adversas como essa.
A teoria econômica da época, denominada de modo genérico como liberalismo, acreditava que a moeda era simples véu que não exercia influência na economia real. Portanto, os governos em geral não se preocupavam em regular a liquidez da economia de acordo com as situações.
Era crença dominante que as crises financeiras se resolviam por si só: a quantidade de poupança existente deveria se ajustar naturalmente às possibilidades de investimento, à medida que a taxa de juros ia caindo. Por causa disso, era tido como boa política econômica que os governos não interviessem nos momentos de crise, para não gerar distorções de longo prazo.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o excessivo conservadorismo monetário e financeiro das autoridades amplificou a crise de 1929. Temia-se na época que o banco central, dando liquidez à economia, causasse inflação, mesmo na depressão. O colapso da liquidez foi então realimentado pela quebradeira de bancos, empresas e pessoas.
No Rio Grande do Sul, o positivismo serviu como contrapeso ao liberalismo. O positivismo pregava um intervencionismo conservador: limitação da política "laissez faire, laissez passer" quando fosse proveitoso para o desenvolvimento econômico, sem que isso comprometesse o equilíbrio do orçamento público. Entretanto, a teoria econômica então dominante no mundo e no Brasil era o liberalismo.
O sistema financeiro nacional estava organizado de maneira incipiente na década de 1920. A autoridade monetária agia preferencialmente através de regulamentações sobre os bancos.
Não existia o redesconto. Isto é: em caso de saques abruptos que superassem as reservas de um banco, não havia um banco central a quem recorrer emergencialmente para transformar créditos em moeda.
Os bancos enfrentavam as crises individualmente, e não como sistema. Podiam apelar para outros bancos nos momentos difíceis, mas a ajuda era eventual, provida por bancos que temiam o contágio em crises de pânico ou pelo Banco do Brasil, que atuava parcialmente como autoridade monetária. O socorro pelo redesconto do Banco do Brasil era incerto, sem regras estabelecidas - o Banco Central do Brasil só foi criado em 1964.
O Banco Pelotense não era especialmente lucrativo, por causa de suas receitas rarefeitas (por seu turno decorrentes da baixa taxa de lucratividade da economia pecuária que era a tomadora de empréstimos).
Em caso de necessidade de compensar perdas com empréstimos perdidos em crises existem duas alternativas: capitalização de lucros gerados no negócio bancário nos anos subsequentes ou capitalização através de injeção de capital.
A capitalização de lucros não era uma alternativa viável no caso do Banco Pelotense. Dessa característica decorre que o banco tinha tendência a acumular as perdas de cada crise, não conseguindo compensá-las, a não ser que houvesse in-jeção de capital.
O Banco Pelotense enfrentou uma grande crise em 1921. Essa crise, conhecida como do pós-guerra, teve seu centro nos países europeus, e foi ocasionada pela superação da escassez natural da guerra e do reequilíbrio dos orçamentos governamentais, que puseram fim à fase de prosperidade do pós-guerra. Ocasionou desinflação mundial (queda geral dos preços).
O fim da prosperidade repercutiu no Brasil com menor afluxo de capitais e receitas de exportação, reduzindo assim a liquidez monetária e a atividade econômica. Também no Brasil ocasionou deflação. Nesse período, faliu o Banco Italiano del Uruguay, o que inquietou os depositantes riograndenses.
No Banco Pelotense, a crise materializou-se em saques de depósitos (como seria natural numa crise de liquidez, independente da inquietação dos depositantes). A desinflação comprometeu também a qualidade das garantias dos empréstimos, pois foram afetados os preços dos produtos pecuários e das terras.
Em 1920, os depósitos do Banco Pelotense somavam 147.000 contos; em 1921 diminuíram para 110.000 contos. Em novembro de 1920 o banco ordenou que todas as contas correntes devedoras (até então sem vencimento estipulado ou garantias apropriadas) fossem transformadas em notas promissórias de prazo curto. (Nesse momento suicidou-se Antonio Sarmanho, gerente da filial de São Borja, sogro de Getulio Vargas, que era devedor nessas contas correntes).
Em 1922 a crise mundial estava superada. Os depósitos em 1922 somaram 143.000 contos, voltando ao nível de 1920. Contribuiu para essa recuperação a decisão do governo do Rio Grande do Sul de transformar o Banco Pelotense em agente financeiro do Estado; esse gesto teve a intenção deliberada de fortalecer o banco na crise.
Entretanto, calcula-se que o comprometimento da qualidade das garantias dos empréstimos e as perdas decorrentes de empréstimos sem garantias (as contas correntes devedoras) transformaram-se em prejuízos de 20.000 contos, que foram agrupadas sob a eufemística denominação "contas sem juros".
De 1922 a 1928, as economias mundial e brasileira tiveram uma fase de expansão prolongada, com expansão contínua da liquidez monetária e da atividade econômica. Nesse período, os depósitos do Banco Pelotense cresceram continuamente, de 134.000 contos em 1922 para 282.000 contos em 1928, ano de seu apogeu.
Em setembro de 1928, foi criado pelo Estado do RS o Banco do Rio Grande do Sul. O Banco Pelotense deixou de ser agente financeiro do Estado, função que passou para o Banco do RGS. Na prática, isso significou a transferência de 30.000 contos em depósitos pertencentes ao governo do Banco Pelotense para o Banco do RGS.
Entre junho de 1928 e junho de 1929, o Banco Pelotense sofreu queda de 26.000 contos em seus depósitos, de 282.000 contos para para 256.000 contos. Essa queda corresponde aproximadamente à transferência dos depósitos do governo do RS para o recém criado Banco do RGS. Isto é, não houve nesse período fuga de depósitos de particulares.
Um ano depois, em 1929, a crise mundial propagou-se a partir dos Estados Unidos, gerando crise de liquidez e depressão econômica. No Brasil, a crise de liquidez foi potencializada pela fuga de capitais, facilitada pelo mecanismo da Caixa de Estabilização, criada em 1926 pelo governo Washington Luís.
As reservas de ouro do governo brasileiro, que em 1919 eram de 31.100.000 de libras, desapareceram em sua totalidade em dezembro de 1930. Essa fuga de capitais gerou enorme crise de liquidez no Brasil, que tinha sua base monetária atrelada às reservas de libra existentes na Caixa de Estabilização.
Como era de se esperar, nesse período o Banco Pelotense sofreu nova queda em seus depósitos, de 256.000 contos em junho de 1929 para 222.000 contos em dezembro de 1929.
A diminuição dos depósitos foi de particulares que sacaram suas aplicações. Justamente foi no 3.º trimestre de 1929 que a crise da Caixa de Estabilização brasileira ocorreu abruptamente, até desaparecerem completamente as reservas brasileiras de moeda forte.
O fato de o Banco Pelotense não ser mais agente financeiro do Estado obviamente diminuiu a credibilidade do banco, enfraquecendo-o para a crise que, imprevista, se avizinhava.
Para fazer frente à sangria de 60.000 contos entre setembro de 1928 e dezembro de 1929, o Banco Pelotense conseguiu recolher 51.000 contos em seus descontos. Essa era a parte recuperável abruptamente; o restante dos descontos eram promissórias que perfaziam 72.000 contos, de recuperação mais difícil e duvidosa.
Portanto, a partir de dezembro de 1929, futuras mobilizações para enfrentar saques, se estes prosseguissem, dificilmente poderiam ser feitas internamente.
Em abril de 1930 faliu o Banco Popular do Rio Grande do Sul, o que aumentou a crise de confiança da população.
Durante todo o ano de 1930, o Banco Pelotense teve sangria contínua de seus depósitos, no total de 58.000 contos, até a corrida final ao banco, entre setembro e dezembro de 1930 (em dezembro restavam 164.000 contos em depósitos). Em setembro de 1930 foram suspensas as publicações dos balancetes do banco, o que provavelmente agravou a corrida final.
Para fazer frente a essa nova evasão, já restavam poucas alternativas. O Banco Pelotense conseguiu mobilizar 22.000 contos das promissórias de seus clientes. O restante (37.000 contos) foi fornecido pelo Banco do Brasil, através de redesconto de promissórias. Entre essas promissórias, estavam 20.000 contos de contas correntes negativas recém transformadas em promissórias (de recuperação incerta), especialmente para fim de redesconto.
Em janeiro de 1931 ocorreu o colapso final do Banco Pelotense. No total, entre setembro de 1928 e dezembro de 1930, a evasão de depósitos somou 118.000 de contos.
Em maio de 1931 o governo do RS nomeou uma comissão especial para preparar a liquidação e encampação do Banco Pelotense pelo Banco do Rio Grande do Sul.
A comissão do governo avaliou que havia perdas a cobrir (em empréstimos de difícil recuperação) de 60.000 contos. Esses 60.000 contos deveriam ser cobertos por capitalização de lucros futuros ou injeção de capital novo.
O banco, por seu grande tamanho, número de funcionário e filiais, tinha uma despesa alta, que, na hipótese de continuar a funcionar, já não podia ser coberta pelas receitas.
A crise de 1929 ocasionou deflação, o que prejudicou as garantias dos empréstimos do Banco Pelotense. O banco já tinha mobilizado os créditos de melhor qualidade; os créditos restantes, por natureza os mais duvidosos, foram ainda afetados pela queda do valor das eventuais garantias, quando existiam garantias.
Havia exaurido sua capacidade de mobilização imediata de ativos para fazer frente aos saques. Já usara o redesconto do Banco do Brasil, que se mostrara insuficiente.
Dificilmente poderia se reerguer contando com capitalização de lucros futuros, seja por causa do abalo de credibilidade, seja pelos altos prejuízos a compensar.
Restava a solução de injeção de capital. Como as perdas a cobrir eram consideráveis, numa situação de crise como a que vigorava, abalada a credibilidade do banco, era impossível recorrer à emissão de ações ao público.
A solução encontrada (liquidação e encampação) não foi uma escolha, mas sim a única alternativa viável que restou nas circunstâncias em que se encontrava o Banco Pelotense.
Pode-se concluir que:
(a) A sangria de depósitos de particulares do Banco Pelotense ocorreu em fase que coincide com a crise de liquidez brasileira e mundial, o que era de se esperar que acontecesse. Os saques durante a crise excederam a capacidade de mobilização do banco, que ainda contou com ajuda do Banco do Brasil.
(b) A retirada dos depósitos do governo do RS para o recém criado Banco do Rio Grande do Sul ocorreu em fase em que a economia nacional ia bem, e não se podia prever a crise que ocorreria dali a um ano. Portanto não pode ser considerada como tentativa deliberada de destruir o Banco Pelotense em um momento difícil, que não ocorria. Pelo contrário, os recursos foram retirados quando o banco estava em seu apogeu.
(c) Obviamente, a retirada dos recursos do governo do RS enfraqueceu a posição do Banco Pelotense, mas era natural que os recursos do Estado fossem depositados em seu próprio banco recém criado.
Localização: Rua Marechal Floriano, 51
Construção : 1916
Em 1906, o Banco Pelotense começa a funcionar, inicialmente à rua Andrade Neves nº 169. Foi fundado em reunião realizada na "Praça do Comércio", por convocação dos Incorporadores Dr. Joaquim Augusto Assumpção, Barão do Arroio Grande, Coronel Alberto Rosa, Plotino Amaro Duarte e Eduardo Siqueira. Em 1910, muda-se para o pavimento térreo do Clube Comercial. Através dos arquitetos construtores Peres, Monteiro & Cia, o Banco Pelotense inaugura sua sede própria em 1916.
Decorridos 16 anos de sua inauguração, contava o Banco com 69 agências espalhadas pelo Brasil: 24 no estado e as demais nos outros estados. É difícil de entender como um banco que desfrutava de tão grande influência nas rodas econômicas do país, teve uma quebra inesperada. Um mistério interpretado pelos historiadores como uma barganha política, efeito de vingança de pessoa poderosa. O fechamento ocorreu em 05 de janeiro de 1931.
O edifício foi projetado para abrigar as funções administrativas, atendimento aos clientes e residência do gerente e funcionários. Formalmente de linhas ecléticas, a obra segue uma composição bipartida: o subsolo e o andar térreo correspondem à base, revestida de ornamentos; o primeiro e segundo pavimentos, correspondem ao corpo e são tratados como uma unidade, recuados em relação ao térreo e unidos através de colunas de ordem monumental. No coroamento, cobertura com mansarda. Ladeando a porta principal, duas cabeças de leão apoiam a sacada e protegem os medalhões onde se lia o nome do Banco. Com o fechamento do banco em 1931, o Governo do Estado incorporou o seu patrimônio, inclusive a matriz, hoje agência do Banrisul.